Resultados de outros estudos foram contraditórios sobre se
mosquito é ou não um transmissor do zika. Agora, novas evidências apontam para
possível capacidade de transmissão.
Por Monique Oliveira, G1
O pernilongo Culex quinquefasciatus que, como o Aedes, é
comum em áreas urbanas (Foto: Wikimedia Commons)
Com a rápida expansão do zika em território brasileiro nos
últimos anos, há um tempo pesquisas na Fiocruz tentam indicar se outros vetores
-- além do Aedes aegypti -- são capazes de transmitir o vírus.
A desconfiança maior recaiu sobre o pernilongo Culex
quinquefasciatus que, como o Aedes, é comum em áreas urbanas. A Fiocruz, então,
foi investigar se o mosquito é capaz de transmitir o zika – e, agora, após o
sequenciamento genético parcial do vírus encontrado no mosquito, pesquisadores
afirmam que há dados consistentes capazes de sugerir que o Culex é transmissor
do zika em Recife.
O estudo foi publicado nesta terça-feira (9) no
"Emerging Microbes & Infections", publicação do grupo
"Nature".
"No Recife, a população de Culex é maior que a do
Aedes. A hipótese era que, se o pernilongo fosse um vetor, isso poderia
explicar o porquê do zika ter se espalhado com relativa rapidez aqui e no
Brasil", aponta Gabriel Wallau, pesquisador da Fiocruz e um dos autores do
artigo.
A Fiocruz já sequenciou genoma do zika coletado em humanos.
O artigo foi publicado na revista "PLos" em 2016. Agora, a diferença
foi que o vírus sequenciado foi obtido do mosquito coletados em Pernambuco.
Semelhanças entre os dois sequenciamentos se somam ao corpo de evidências de
que o Culex tem potencial para ser um vetor.
Além disso, cientistas descreveram evidências microscópicas
de que o vírus está se replicando na glândula salivar do Culex. Eles também
identificaram várias sequencias genéticas do vírus em diferentes tecidos do
mosquito com técnicas de biologia molecular.
“Se a gente comparar com todos os artigos que saíram sobre o
assunto, esse é o artigo mais completo, com o maior número de evidências",
diz Wallau.
O pesquisador aponta que é a primeira vez que se faz um
sequenciamento genético do vírus a partir do Culex. O sequenciamento do Zika a
partir do Aedes foi feito por um grupo nos Estados Unidos.
O achado pode influenciar políticas públicas voltadas para o
controle do mosquito. A Fiocruz agora pretende mapear o comportamento do
pernilongo no meio ambiente para entender se o Culex de fato tem o mesmo poder
de transmissão que o Aedes.
Evidência anterior foi contraditória
Até agora, pesquisas sobre se o pernilongo seria um possível
vetor do zika foram dúbias -- enquanto alguns estudos demonstraram que o Culex
não transmite o vírus, um artigo recente publicado no mesmo periódico indicou
que o pernilongo coletado em áreas urbanas da China foi infectado com cepas
locais do vírus zika.
O pesquisador da Fiocruz explica que são muitas as razões
para a inconsistência entre os estudos, e que diferenças na capacidade de um
mosquito ser ou não vetor são comuns.
"Pesquisas com o Aedes também indicam diferenças na
capacidade de transmissão", explica o pesquisador.
Uma das explicações para essa diferença é a grande
variabilidade genética entre os mosquitos -- o que influencia na capacidade
tanto do Culex como do Aedes serem vetores. "Sabemos que características
genéticas podem bloquear a capacidade do mosquito transmitir o vírus."
Outro ponto são as diferenças geográficas. Alguns estudos
coletaram Culex dos Estados Unidos, por exemplo, enquanto que os mosquitos do
estudo da Fiocruz foram coletados em Recife.
O grupo da Fiocruz de Pernambuco tem grande conhecimento
sobre o comportamento do Culex, já que, em Recife, há um problema de saúde
pública com a filariose, também conhecida como elefantíase e transmitida pelo
pernilongo. A filariose tem por característica o inchaço de peles e tecidos.
No Recife, já existe uma política pública de controle do
Culex, que se multiplica em matéria orgânica. Uma das ações públicas para o
controle do pernilongo é, por exemplo, um melhor manejamento do lixo orgânico
na cidade.

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